Artigo - A VIDA NA CONTRAMÃO

A VIDA NA CONTRAMÃO

Por Nuno Luis Amaral

24/11/2008 - 12:25:20



O mundo continua acontecendo na contramão do que você acredita e luta e a vida não segue nossas idéias. Precisamos fazer uma leitura mais profunda sobre a humanidade porque as coisas caminham cada vez mais para a ilusão e já há quem diga que estamos entrando numa esquizofrenia coletiva, sem chance de reversibilidade. Isto quer dizer, a confusão mental e relacional está tomando proporções alarmantes, ficando difícil mudar o rumo que a sociedade adotou e não tem como solucionar tal conflito generalizado pelo mundo inteiro.

Eu estou preocupado com esta realidade e, pensando em nossos encontros do passado, resolvi escrever-te o que penso atualmente sobre o assunto que me falas, por ser fruto do contato do meu dia-a-dia com minha clientela.

Esta é a visão sobre o problema que vivemos e nos envolve a todos sem exceção:

• a família já está em decadência porque o mundo contemporâneo mudou o rumo da humanidade, não se dando conta que ela é a primeira escola da vida de cada indivíduo;

• as crianças estão entregues à própria sorte porque os primeiros anos de vida que deveriam ser respeitados dentro do seio familiar foi trocado por berçários, creches e escolas que não têm a menor condição de substituir a função materna e paterna;

• o psiquismo das crianças fica deformado, porque a afetividade, a emotividade as sensações e sentimentos são todos atropelados por conteúdos outros, sejam eles lúdicos ou cognitivos que não vão ajudar em nada a resolver os problemas existenciais de cada indivíduo, muito menos no que se refere à convivência e relacionamentos sociais;

• as escolas assumiram um papel além daquele que é de sua competência, educar o ser humano, função esta exclusiva dos pais e que deve ser desenvolvida dentro do convívio familiar, uma realidade atualmente quase impossível, porque o ensino e a instrução incorporaram esta tarefa e não atendem aos aspectos essencialmente biológicos e existenciais de cada indivíduo;

• à medida que as crianças crescem já demonstram comportamentos desestruturados, mas logo aprendem uma maneira habilidosa de auto impor suas vontades, e não são poucas, tornando-se rebeldes, agressivas, teimosas, intransigentes, cuja insistência lhes permite conseguir tudo o que querem, tornando-se aos poucos pessoas extremamente autoritárias e dominadoras, mal humoradas, infelizes, eternos indivíduo insatisfeitos;

• ao perceberem estarem sozinhas num mundo totalmente desconhecido, as crianças naturalmente são obrigadas por seus instintos a construir comportamentos, só que de maneira negativa, diria eu; uma atitude inconsciente de vingança contra os pais, os adultos e até mesmo os professores pela condição em que se encontram e, à medida que o tempo passa, o vazio existencial vai tomando proporções cada vez mais profundas e intensas, cuja saída mais fácil para apaziguar as aflições, conflitos, revoltas e excesso de energia reprimida são as drogas, o álcool e o sexo de maneira inconseqüente;

• a convivência com seus iguais fora do ambiente familiar, inclusive porque estão todos na mesma situação, não favorece a mudança do quadro interno como era de se esperar. Por isso que ocorre uma sublimação, ou seja, a criança sufoca seus desesperos para não se tornar inconveniente, até porque ainda têm muito do “chá de si mancol”, o sentimento da vergonha que freia seus impulsos, mas não favorece uma transformação adequada do ponto de vista da evolução neuropsicológica voltado para resolver os processos internos de cada indivíduo;

• desde muito cedo as crianças e os jovens aprendem a viver pendurados no bolso dos pais que tudo lhes favorecem e porque são convencidos pelo cansaço. Deste modo eles nunca aprendem a construir valores e respeitar limites, porque o querer e a vontade são mais fortes do que o bom-senso e se tornam os instrumentos dos quais se utilizam para exercerem sua falsa autonomia, uma vez que têm tudo de “mão beijada”. Todavia não desenvolvem a noção do que seja custo financeiro nem o esforço necessário aplicado para se adquirir algum bem, porque os instintos desenfreados se impõem, cuja conduta impulsiva atropela a capacidade de discernimento, percepção e organização psicológica;

• nossos jovens estão construindo um futuro indolente, vazio, sem ética nem moral, desprovido de objetivos efetivamente humanos, uma vez que são treinados muito cedo a lidarem com o intelecto, a razão e a vontade, alimentados por sonhos, devaneios e fantasias que a nossa sociedade criou e não abre mão deste recurso por ser através do mundo imaginário e irreal que ela sobrevive. Como os jovens nunca conseguem aprender a lidar com sua real natureza orgânica porque este aprendizado deveria começar na família, moldado na escola e aprimorado na sociedade, tal lacuna reflete-se em todos os estágios da sua sobrevivência, infância, adolescência, jovem e adulto, transformando as pessoas cada vez mais infelizes e sem saberem a causa que leva a instalar-se tamanha aflição que se arrasta pela vida fora;

• enquanto isso os adultos acreditam que, através do acúmulo de conhecimentos, as crianças e os jovens vão aprender tudo o que necessitam para serem pessoas verdadeiramente humanas, sadias, equilibradas e socialmente ajustadas. Ledo engano. O conhecimento não atende às exigências da natureza bioquímica do indivíduo porque ele vai para a memória e esta não é treinada para alimentar as necessidades orgânicas, porque normalmente se desassocia sua verdadeira função biopsicológica para ela dar unicamente suporte ao mundo psíquico e intelectual. Isto significa dizer que nossos jovens, para não ir mais atrás e incluir nós adultos, estamos todos com o sistema neuronal comprometido porque ele não trabalha com conhecimentos adquiridos, mas através de química que precisa ser treinada desde a mais tensa idade, de modo a conseguir abrir o máximo possível de canais de sinapses para que o cérebro seja efetivamente o único meio capaz de nos humanizar e não o conhecimento acadêmico.

Este só tem sentido quando o corpo e a mente estão em harmonia. Caso contrário o indivíduo começa a se dar conta que algo está errado com ele e, em vez de procurar ajuda especializada, recorre aos paliativos que estão ao seu entorno. Assim o fumo, o álcool, as drogas e o sexo, passam a ser os meios mais práticos e imediatos para extravasar ou reprimir angústias, desesperos como também tentar neutralizar tensões que, em vez de relaxar, se acumulam cada vez mais.

Infelizmente estamos num beco sem saída porque os adultos não entendem que os jovens estão reclamando por algo que não tiveram e lhes faz falta para superarem as aflições e conflitos emocionais e sentimentais exacerbados. Esta realidade está muito longe de ser compreendida porque os valores e interesses sociais são outros, por isso os jovens estão se tornando bombas atômicas, vivas e ambulantes, uma vez que o próprio corpo é constituído por átomos, mas não está suportando o acúmulo de energia reprimida.

O que fazer com uma realidade caótica que afetou a natureza, o humano e a sociedade?

Quem são os responsáveis?
Será que ainda é possível reverter tal situação?
Esta é um texto que acabei de escrever para reflexão. Esta foi sempre minha postura, mas está longe de ser a visão de quem tem o poder e capacidade de ajudar a mudar essencialmente a vida de nossas crianças e jovens. Minha esperança ainda é trabalhar com aqueles que ainda têm esperança uma vez que os adultos já estão contaminados pelos vírus da ganância e do consumismo, atropelando-se e se iludindo sem se darem conta que estão caminhando num vazio que não leva a nada.

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Nuno luis Amaral – É Terapeuta Corporal holístico, Fundador e Diretor do IPEC – Instituto de Energia Corporal. ipec.ipec@terra.com.br